DE RENOVATIO IMPERIUM ROMANORUM

Quando o filho de Aquiles mata o rei troiano, e a cidade de Tróia é destruída pelos gregos, recebe o nobre guerreiro Enéias uma visão de Heitor. O herói troiano desde o alto entrega a Enéias o mandato imperial de levar seu domínio e sua família para fundar uma nova pátria em uma terra nova. A semente guerreira dará origem às duas crianças proféticas, os filhos da loba, Rômulo e Remo.

    Estes dois fundadores supra-humanos, com a missão de refundar a cidade troiana nas margens do Lácio, fundam uma cidade sobre sete montes que viria a ser, e, em espírito já o era, o berço do mundo civilizado Europeu. O Reino de Roma, ainda pequeno, já possuía em si as bases civilizacionais e organizacionais que serão o modelo perfeito de civilização para todo o mundo: a virtu.

   Mesmo nesta época longínqua de Roma, onde o território por Ela dominado se reduzia apenas à algumas cidades no Lácio, já havia a tentativa de minar, por dentro, a regina urbium e destruí-la. Vemos claramente o início desse movimento com Tarquínio, o Soberbo, que usurpa o Trono de Rômulo, subjuga os Patres, e, por fim, sua prole iníqua viola a justa Lucrécia.

    Porém, o Povo Romano, liderado por Lúcio Júnio Bruto, ardentes com o espírito de seu Fundador, revoltam-se contra a coroa iníqua e a extinguem, dando início à República Romana. Este embate demonstra a luta entre dois movimentos opostos, que viriam a ser todo o embate dentro do mundo Romano: o movimento da degeneração, da iniquidade e da fraqueza; e o movimento da fundação, que foi o que deu início ao Reinado de Alba Longa, fundado por Enéias, e à Urbs, fundada por Rômulo na tentativa de refundar Tróia.

    Este embate se dá, em uma proporção quase homérica, e de uma forma perfeita e simbólica, na oposição entre Roma e Cartago. Toda a história das guerras púnicas se resume ao prélio do movimento degenerativo da cidade cartaginense, onde se sacrificavam crianças aos demônios e se praticavam toda estirpe de atos incivilizados, contra as forças civilizacionais Romanas. Com a vitória final de Roma sobre Cartago, na terceira guerra púnica, se confirma na História a vitória da força elevada da civilização contra as forças baixas da barbárie.

    A vitória final de Roma, além de ser um sinal simbólico da vitória da civilização contra a Barbárie, também possibilita a expansão territorial da Grande Cidade, e com isto, acompanha a missão divina de dominar e civilizar todo o mundo conhecido.

    Vimos a repetição desta anakyklosis, no final da era Republicana, o embate entre as forças degeneradas do Senado com a figura supra-humana de César. Estes primeiros, imbuídos de inveja das conquistas e poder deste último, lançam uma guerra iníqua com suas línguas dolosas contra aquele que o mesmo Deus proclamou pertencer todas as coisas da terra: dai a César o que é de César. Após vencer triunfalmente as potestades degenerativas, o novo Rômulo constrói o pilar imperial civilizatório: romaniza os povos que ele conquistou e é proclamado pelo povo como ditador perpétuo, confiando assim nele, os fachos para liderar o Povo Romano.

    Mesmo assim, contra o justo César, que restaurou Roma ao domínio universal, uma Roma que se encontrava ameaçada pelos povos bárbaros, se levantou uma revolta vinda daqueles mesmos que este havia dado o perdão. A partir de uma conjura maldita, os senadores incluindo um homem a quem César tinha por filho, Bruto, tiram a vida ao augusto pai de uma maneira covarde. O seu augusto filho, Júlio César Augusto Otaviano, recebeu de seu pai o espírito de Rômulo, e, após se vingar daqueles que mataram a seu pai, funda o Império, que é a forma perfeita da civilização, superando a era republicana, monárquica e até mesmo a própria fundação da Cidade Eterna.

    Na Era Augusta, se dá em Roma, a santificação das coisas terrenas. Nasce então, enquanto Augusto segurava os fachos, Aquele que havia sido prometido aos homens desde a sua queda: o Homem-Deus, o Salvador Divino.

    Este homem perfeito, nascido em uma província do Império veio, não para destruir a Cidade, mas santifica-la. Jesus Cristo, em sua vida terrena, lidou com as mesmas forças ketonico-farisaicas que tinham por seu maior interesse a destruição da Cidade Eterna. Fariseus que esperavam um enviado que viesse para subjugar Roma e libertá-los da justíssima dominação da águia romana.

    Estes traidores, que se aproveitaram da amizade que o Império possuía com o seu povo desde um tempo longínquo, e com suas línguas dolosas, acusaram diante do Governador Pôncio Pilato o Cristo. Mesmo com a multitude de suas tentativas, não pôde ver Pilato no Deus Encarnado crime algum, e, por sua vontade, queria libertá-lo. Porém, temendo uma revolta do povo, que geraria um caos em uma época pacífica na qual ele estava, lavou suas mãos e entregou o Homem Justo nas mãos dos pérfidos fariseus.

    Porém a força fundadora do Cristo não morreu na Cruz e após ressuscitar ao terceiro dia, o Homem-Deus funda a Igreja ao dar aos seus discípulos o mandato de espalhar para todo o mundo o Evangelho e converter todos os povos ao Justo Redentor. Foi dado, ao discípulo que mais o amava, a primazia espiritual entre todos os outros, e este, evangelizando povos de várias nações, zarpou finalmente à Cidade Eterna, a fim de converter a Urbis.

    Chegando na cidade, viu-se na mesma situação do seu Divino Mestre: havia caído nos embustes dos fariseus e foi crucificado assim como o Cristo. Porém a coisa já estava feita: já se havia confirmado a Cidade Eterna como cátedra do justo Pedro, e seus sucessores haviam de continuar o mandato do Filho de Deus.

    Tempos após, depois de incessantes embates entre as potestades farisaicas anti-romanas e o poder Católico Romano, pode a Igreja ver a operação da graça divina quando o justíssimo Imperador Constantino, após receber uma visão do alto que consistia no Cristograma (PX), e a voz do próprio Cristo que dizia: in hoc signo vinces (com este símbolo vencerás), e se converteu ao Homem-Deus.

    Nesta época, a Igreja Romana passava por uma crise teológica onde uma estirpe de hereges afirmavam que Jesus Cristo não era Deus, eram eles os seguidores de Ário. Vendo o cristianíssimo Imperador Constantino essa grande ameaça, decidiu convocar os Bispos Católicos em concílio para deliberar e pôr um fim nesta questão. Este foi o Concílio de Nicéia, que decidiu as bases do Catolicismo como conhecemos e foi o Concílio mais importante da história da Igreja, por ter condenado o Arianismo e proclamado o Credo Católico, impedindo que os hereges derrubassem o Louro e a Coroa de Espinhos.

    Este movimento Constantiniano deu partida ao início da era da segunda Roma, que ainda estava em germe na fundação da cidade de Cosntantinopla, que foi fundada pelo próprio Imperador, nas bases da antiga cidade grega de Bizâncio. Houve neste período uma coexistência, embora que fossem as duas a mesma coisa por partilharem do mesmo espírito e possuírem as mesmas instituições, entre a Roma do Ocidente e a Roma do Oriente.

    Após a Queda do Império Romano do Ocidente, com as invasões bárbaras e tendo esta mesma queda ocorrido quando as forças degenerativas haviam tomado conta dos corações do povo, do clero e do próprio Senado, é consolidado o Poder da segunda Roma, Constantinopla.

    A nova Roma de Constantino manteve a tradição Romana religiosamente e secularmente e foi a mãe da Idade Média. Porém, este movimento fundador também encontrou a sua involução, e, após a vitória desta última, em uma ação louca, profana e imbuída de soberba, Constantinopla decidiu por segregar-se da Cidade Eterna, negando a primazia da Urbis e tomando injustamente para si o poder espiritual.

    Posterior à esta triste seção de Constantinopla, embora mantendo o espírito Romano de maneira secular, já não havia mais aquela primeira junção entre o Louro e a Coroa de Espinhos e, por tal, encontrou o seu fim. Sobrevivendo a mais de quatro Séculos de invasões muçulmanas, viu a sua queda no dia de Pentecostes, dedicado ao Espírito Santo, ironicamente tendo sido a chave do cisma um dogma sobre o Paráclito.

    Ao mesmo tempo em que a Segunda Roma, ainda quando estava unida ao Papado e à Grande Cidade, o Papa, induzido pelo espírito fundacional, após ver na figura de Carlos Magno um legítimo Romano, decide por restaurar a Roma do Ocidente, dando início à era da Terceira Roma.

    Esta outra Roma, embora que imperfeita em comparação à Roma Augusta, manteve o Espírito Romano vivo desde sua fundação até a sua queda nas eras napoleônicas. Sobreviveu todo tipo de embustes, infiltrações, conjuras e revoluções. Viu ela o seu fim não por um movimento único, mas pelas concessões que deu ao longo de sua vida, aos movimentos de corrupção que encontrou ao passar dos séculos.

Marcada por grandes homens e sendo o berço de vários gênios, foi ela o mais próximo que tivemos de uma restauração da primeira Glória Romana, com a união de César e do Cristo.

    Vemos nesta anedota das três Romas o embate entre o movimento fundador, que chamarei aqui de espírito de Rômulo, com as forças baixas, ou forças degenerativas. Em toda a história da Romanidade e da Cristandade, é mister notar que sempre houve este prélio e as quedas se dão quando o espírito de Rômulo se enfraquece em relação ao espírito da corrupção.

    O Catolicismo, que é por sua própria essência Romano, existe exatamente como um bastião para que as forças baixas não subjuguem o espírito elevado do homem. Ao direcionar as paixões às coisas altas e ao pregar a penitência e a dominação sobre a concupiscência, a Igreja preza exatamente por impedir a queda, consequentemente do homem e da Cidade.

    É notório também o embate dentro da própria Igreja, ou mais especificamente do próprio clero, das forças da Romanidade contra as forças da degeneração. Ao passar dos séculos, de maneira infeliz e triste, notamos a vitória temporária da potestade corruptiva contra o espírito Romuliniano, ainda mais nos tempos modernos. Logo, é necessário que nós, como Católicos Romanos, restauremos esse espírito de Roma em nossos corações, nossa alma e em nossas mentes e passemos este mesmo espírito para nossos próximos.

    É necessário que invoquemos Roma, clamemos o seu nome e incessantemente trabalhemos para a restauração da Cidade que, sem Ela, não há propriamente Igreja, pois é impossível separar a Urbis da Ecclesia. Esta união não é meramente acidental, a própria essência da Igreja Romana está unida intrinsecamente à cidade de Roma e à própria Romanidade, vemos isto com as incessantes tentativas do bom clero católico de restaurar Roma ao longo dos séculos, como o exemplo que dizemos de Carlos Magno.

    Temos, na Igreja Católica, a última instituição Romana, a única que não caiu apesar de todas as tentativas de a destruir ao longo dos séculos. Subsiste nela a centelha do Império e é nela que devemos mirar a fim de restaurar a Regina Urbium. Roma está na Igreja, está na cultura Europeia, está nos seus descendentes e em todos aqueles que a amam e a buscam.

    Porém, é impossível amar e querer algo que não conhecemos. Antes de tomarmos as ações próprias para a restauração da Urbis, é necessário conhece-la. Por este motivo, é fundamental estudar o Latim, a cultura, a religião Católica, a história e se inteirar por todo do que é o espírito da Romanidade, ou Romanitas.

    Este é o intuito deste site: ser uma fonte de conhecimento da Romanitas e de tudo que nela se inclui: latim, cultura, religião, história, guerras, figuras de Roma e tudo o mais que foi perdido, ou melhor, sabotado ao longo dos séculos e implementar, no mundo lusitano, tudo o que dizemos.

    Sejam bem-vindos ao Circulus studiorum traditionalistarum de Romanitate Europae et Traditione Catholica.